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D. João Henrique de Orleans e Bragança

‘NÃO TEMOS UMA REPÚBLICA COMO MANDA O FIGURINO’

1 de maio de 2011 | 23h00

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Joãozinho Príncipe elogia a monarquia e critica nações pouco democráticas

Na semana em que o mundo parou para reverenciar a monarquia britânica, com o casamento de Kate e William, volta-se a discutir o papel da realeza. Dom João de Orleans e Bragança, na condição de trineto do último imperador do Brasil, Dom Pedro II, considera existir hoje “monarquias mais republicanas do que algumas repúblicas na América Latina”. Joãozinho Príncipe, como é conhecido no Rio de Janeiro, é fotógrafo – com mais de dez livros publicados – e dono da Pousada do Príncipe, em Paraty. Ele falou à coluna.

Na sua opinião, o que o casamento de William significou para o povo britânico?

Entre outras coisas, demonstrou que a monarquia vem se modernizando juntamente com a sociedade. A união de Charles e Diana ainda seguia uma adequação social. Mesmo não estando apaixonado, ele avaliou que ela seria uma rainha melhor para seu país. Isso ratifica a dedicação que uma família real deve ter com seu povo. Está aí um exemplo nítido do senso de dever cívico. Em 30 anos, o casamento só por adequação parece ter mudado. Kate e William formam um casal moderno e apaixonado. E é sensacional ela ser plebeia. Mas tem de estar à altura para representar o país.

E por que esse frisson ecoando no mundo todo?

Há milênios, reis e rainhas estão no imaginário de todos nós. Castelos, palácios, o rei à cavalo… Mas fica fútil quando só se fala de casamentos e fofocas. Temos que compreender a importância da monarquia.

Qual é a importância da monarquia para o mundo hoje?

Antes de tudo, precisamos deixar claro que falarei de monarquias democráticas que atuam em sistema parlamentarista. Como, por exemplo, Dinamarca, Suécia e Inglaterra. Não estou falando de ditaduras como as da Arábia Saudita ou Kuwait. Isso posto, o papel da família real hoje é, antes de tudo, diferenciar Estado de governo. Nos sistemas presidencialistas da América Latina, as duas instituições são representadas na mesma figura do presidente, o que muitas vezes é até conflituoso. Porque o Estado não deve ter partido político e ideologia. Mas, sim, representar a identidade, a cultura, a união territorial de um país. É para isso que servem hoje as monarquias em parlamentarismo democrático.

O senhor acha a monarquia um sistema democrático?

Já viu maiores democracias que Suécia, Dinamarca e Holanda? São monarquias com princípios republicanos: igualdade e altos índices de desenvolvimento humano. Em alguns países ainda são conservadas algumas tradições antigas que deveriam ser modernizadas.Mas essas democracias não gastam dinheiro à toa. Não investiriam em algo que não achassem útil. Enquanto a monarquia for necessária para o equilíbrio político, eles vão usar. E não tenha dúvida de que quando este modelo não for mais eficiente, acabarão com ele. E de forma pacífica.

Acharia viável a restituição de uma monarquia no Brasil?

O País tem um histórico monárquico muito positivo. Funcionou bem no período de Dom Pedro I e II. E se o Brasil tem hoje o tamanho continental em uma América Latina fragmentada com países de língua espanhola, deve-se à vinda de D. João VI e a sua visão de unidade nacional. Agora, se poderia dar certo resgatar um modelo que há cento e tantos anos não está mais aqui? É complexo, mas poderia.

Como é o engajamento político de sua família?

Tenho minhas escolhas políticas, mas pertencendo a esta família não acho que devo participar de disputa partidária. Minha luta é pelo País, pela democracia. Já fui convidado para ser candidato ao Senado. Até o Brizola me chamou, mas não dá. Esta deve ser a postura das famílias reais.

O que acha da República atual?

Eu prefiro o parlamentarismo democrático. Mas ainda não temos uma República como manda o figurino. Quando políticos assumidamente mensaleiros são recebidos de braços abertos em cargos públicos só me faz pensar que trata-se de uma “República das Bananas”. Não se respeitam valores de igualdade, cidadania, liberdade, punição para quem quer que seja. A máxima de que punições não valem para “amigos do rei” se aplica para “amigos do governo”. E isso não é de hoje.

Como está a questão dinástica brasileira? Ainda há disputas entre o ramo de Petrópolis e o de Vassouras para definir qual parte da família imperial detém os direitos sucessórios?

Isso é uma questão menor. Não tem nem valor jurídico, é só uma questão histórica. Quem é o sucessor? Não é ninguém, quem manda é o povo. Se por acaso houvesse uma monarquia no Brasil, num modelo moderno com rei de terno e gravata, acho que estaria mais alinhado ao ramo de Petrópolis, do qual eu pertenço, que é mais sintonizado com o Brasil de hoje. Existe uma discussão com uns primos meus, mas eles têm um discurso pouco atualizado, muito menos adequado a uma monarquia moderna.

É mais uma questão de ser porta-voz da família imperial?

Não. Eu sou porta-voz da minha família e dos ideais que foram de Dom Pedro I e II, baseados em respeito ao País. Mensaleiros não respeitam a nação e não merecem segunda chance para a vida pública. É uma traição.

 

Um príncipe republicano

Seu rosto faz lembrar algum personagem que figura entre os heróis dos livros didáticos de história. A genética não poderia mentir quando se atribui a d. João Henrique de Orléans e Bragança, 56 anos, uma grande semelhança física com seu trisavô, o último imperador do Brasil, d. Pedro II. Como herança familiar, seu parente mais distinto não lhe deixou bens, mas vontade política e amor pelas artes. Dono de uma imobiliária na pequena Paraty, no estado do Rio de Janeiro, ele abre, todos os anos, com um almoço "na casa do príncipe" a Festa Literária Internacional da cidade (Flip). Além dessa boa rede de relacionamentos, ele é fotógrafo e um bom viajante. Mais conhecido entre os amigos como dom Joãozinho, o bisneto da princesa Isabel defende que o aniversário de 121 anos da república no Brasil está longe de ser uma data digna de comemoração. Ele destaca que as principais deficiências do Estado brasileiro são a "falta de ética" e esquecimento do "verdadeiro conceito de república". Figura marcante entre os membros da família imperial do Brasil, ele revela ser "um profundo republicano".

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´O Brasil não é uma república de fato`

O Brasil elegeu uma mulher de esquerda como sua primeira presidente. Este fato representa um amadurecimento da democracia no país?

Uma questão é certa: o resultado dessa eleição presidencial mostrou que, no Brasil, não há um forte preconceito contra as mulheres. A eleição da primeira presidente foi positiva para a sociedade como um todo, pois mostra que ambos os sexos, desde que exista capacidade e preparação, podem ser eleitos democraticamente para gerir um país como o nosso. Agora, as pessoas não sabem que a imperatriz Leopoldina, esposa de d. Pedro I, foi a primeira mulher que chegou a exercer a chefia do estado no país. A princesa Isabel, tempos mais tarde, repetiu o exemplo e libertou os escravos, em 1888.

Passados 121 anos do fim da monarquia, qual a sua opinião sobre o conceito de república no Brasil atual?

Res publica, de acordo com a origem do termo, significa respeito ao patrimônio público. Você acha republicano chamar ladrões de alopradores? Você acha republicano ter no quadro político mensaleirosdeclarados? Se a população parar e refletir, vai chegar à conclusão que esse sistema está em crise. A corrupção tomou conta do governo. Os mensaleiros, por exemplo, estão todos soltos. Me diga um que esteja na cadeia? Nenhum. Mas eles não são os únicos aproveitadores da máquina pública. E os coronéis nordestinos, que depois de tantos anos, tantas notícias na mídia, ainda continuam se elegendo e formando um forte grupo dentro do Congresso e nos estados? É, por isso, que eu digo que o Brasil não é uma república. República é sinônimo de justiça, igualdade e cidadania. As monarquias da Suécia e Noruega são profundamente republicanas porque respeitam esses valores. Nesses países, o banqueiro frequenta o mesmo restaurante que um bancário. Por isso que eu digo que sou profundamente republicano.

Então, o Brasil precisa adotar o parlamentarismo e a monarquia numa possível reforma política?

Monarquia e república são sistemas políticos que funcionam bem em muitos lugares do mundo, os dois. No Brasil, a república começou nas mãos das elites insatisfeitas com a libertação dos escravos e com os militares com sede de poder. Ou seja, foi um sistema que já nasceu excludente e opressor. Antes de tudo, o que eu defendo hoje é o parlamentarismo. Mas, claro que não se muda um sistema político de uma hora para outra. Primeiro, o país deve se adaptar ao parlamentarismo. Depois dele implantado, é que vem a hora de decidir se vai funcionar com parlamentarismo republicano ou monárquico. É a partir do parlamentarismo que poderemos ter uma política mais saudável do ponto de vista ético. Tudo isso deve ser pensado e debatido. Pois, não somos de fato uma república, pois, ser republicano não é fazer conchavos eleitorais, nem dizer que em Cuba não existem prisioneiros políticos.

Muitos membros da realeza, em todo o mundo, se casam com parentes da própria nobreza, como duques e príncipes. Você acredita que esse tipo de casamento afasta a monarquia da realidade das classes populares?

A rainha da Inglaterra tem parentes em casas reais na Alemanha, na Espanha e França. O mesmo acontece com os membros da família real da Espanha, que, por sua vez, têm parentesco direto com casas reais da Grécia, por exemplo. E isso não impede que essas pessoas sejam altamente populares em seus países. O próprio d. Pedro II, no século 19, tinha como um dos parentes o rei de Portugal. Agora, me diga se existiu uma pessoa mais brasileira que ele? O nosso imperador falava tupi e guarani, percorria esse país de Norte a Sul. Eu mesmo viajo por todo o Brasil e as pessoas vêm me contar relatos dessa brasilidade de d. Pedro II. Ele fazia questão de ir pessoalmente às escolas para ver como andava as condições de ensino, abria cadernetas de frequência, procurava saber com o professor por que aquele estudante estava faltando às aulas. Não existe esse afastamento, o imperador era, antes de tudo, o chefe do país.

Se havia essa aproximação de d. Pedro II com a população, por que ele e a família imperial seguiram para o exílio na Europa quase 24 horas após a Proclamação da República?

O que havia era o medo da popularidade de d. Pedro II. A família imperial do Brasil, aí já falo dos descendentes do imperador, foi a protagonista do maior exílio da história do país. Foram mais de 30 anos de exílio, entre os anos de 1889 a 1922. Os governos republicanos que sucederam o primeiro presidente, o Marechal Deodoro, tinham medo da relação da princesa Isabel com os escravos. Ao contrário de muitos políticos de hoje, d. Pedro II morreu pobre num hotel de Paris, em 1891, e documentos comprovam isso. Assim que o golpe da República foi consumado, o governo provisório ofereceu uma pensão ao imperador. Ele se recusou a receber e disse: "Como eu posso aceitar dinheiro do Brasil sem estar servindo ao meu país?". Me diga qual político hoje negaria uma pensão do Estado? É isso que falta hoje no sistema republicano. As pessoas se aproveitam de cargos públicos para satisfazer desejos pessoais ou mesmo praticar atos ilícitos. Democracia é você saber ouvir o outro, debater. E d. Pedro II fez isso muito bem. Umadas provas é que ele coordenou o maior número de ministérios da história do país, em 49 anos de reinado, com debate público. Se você analisar esse período de governo, vai notar que os liberais e conservadores passaram quase o mesmo tempo no poder. Isso nós não temos hoje, que é formar um estado democrático, com alternância de pensamento e ideologias no poder. Só conseguimos isso com muito diálogo. Infelizmente, parece que essa qualidade anda faltando em nossos quadros políticos.

A família imperial do Brasil arrecada um imposto sobre a venda e compra de imóveis em Petrópolis, que na época do plebiscito de 1993 girava em torno de US$ 300 mil. Como é administrado esse patrimônio?

O ramo de Petrópolis, que é uma parte dos descendentes do imperador d. Pedro II, é que recebe esse dinheiro. São os filhos de d. Pedro Gastão (antigo chefe da família imperial) que recebem o laudêmio. Eu mesmo não fico com nada. Pois, meu pai, o príncipe d. João Maria (neto da princesa Isabel) vendeu suas ações há muito tempo porque não rendiam muita coisa. Se fosse para depender apenas desse dinheiro, eles não teriam nada. Pois, além de pouco, eles pagam impostos em cima do valor e boa parte desse dinheiro é para a manutenção do patrimônio histórico da família imperial, em Petrópolis, pagando funcionários que cuidam dos arquivos e documentos históricos da cidade e na preservação da antiga casa da princesa Isabel e do palácio do Grão-Pará (residência oficial da família imperial do Brasil localizada atrás do Museu Imperial, em Petrópolis).

Alguns personagens da família imperial foram caricaturados pela história nacional como mulherengos, a exemplo de d. Pedro I, ou bobões, como d. João VI. O senhor acredita que esses conceitos podem mudar?

Essa imagem já vem mudando por conta das comemorações dos 200 anos da chegada da corte ao Brasil, no ano de 2008. Hoje, os historiadores avaliam que d. João VI foi o verdadeiro responsável pela unidade política no país. É bom frisar que é nesse período que o Brasil passa a existir como nação. Agora, também é bom mencionar que d. João VI foi o responsável pela realização de um antigo projeto de Portugal. Pois, como sempre foi um país minúsculo dentro da Europa, havia necessidade de ampliar seus domínios pelo mundo. O projeto de transferir a sede administrativa de Portugal para o Brasil é uma ideia que vem desde os tempos do Marquês de Pombal. Foi d. João VI que pôs em prática a criação do império do Ocidente.

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Vídeos

D. João Henrique de Orleans e Bragança na Rede Globo, entrevista a Jô Soares, 24.5.2010

Parte I

Parte II

Dom João Henrique de Orleans e Bragança no Programa "Roda Viva" da TV Cultura, exibido em 17.11.2008

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Parte VIII

D. João Henrique de Orleans e Bragança, Programa "Show Business", entrevista a João Dória Jr., 27.1.2008

Parte I

Parte II

D. João Henrique de Orleans e Bragança na TV Câmara, entrevista a Paulo José Cunha, 13.3.2007

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